poemas
Aqui você tem uma pequena degustação do que vai encontrar em cada um dos 14 livros editados pela ameop.
Livro 1
Yuuka, de Alice Ruiz
cachorro dormindo
e o prato de comida
cheio de flores
***
árvores frondosas
mas é na seca
que o pássaro pousa
***
o vento passou
restou apenas
o aceno das árvores
Livro 2
ex, Peri, mental, de Ricardo Silvestrin
Restam poucas chances.
Bate-boca,
todos os partidos,
um pouco de cinema,
o dedos dos profissionais,
o trem dos covardes,
uma faxina mental.
Pra quem tá a fim,
em um ano mil casos,
pista de corrida.
Amor:
assunto para amadores.
Prática desmente teoria.
***
Anjos da guarda
não estão preocupados com o caráter moral da questão.
Mas não se iludam,
Einstein estava relativamente certo
explicando tudo
sob medida.
Além disso,
a outra volta do parafuso,
ziguezague,
espaço livre,
caminhos indiretos,
os novos sinais de fumaça,
existem maneiras.
Este ano ligue,
venha conversar,
aproveite este refresco.
Apesar da chuva,
meu nome.
***
Lá no horizonte,
o ar frio.
Mais perto de você,
a saudade.
Fotografias.
Um quadro completo.
Vale a pena ver
só.
A verdade é uma escultura,
se você quiser anunciar.
Livro 3
Trechos, de Celso Gutfreind
NADO
De máscara em máscara
passas como um fósforo.
Já riscas a próxima,
porém ainda lembras
um outro de antes
ou depois da chama.
E segues a luta
de torna-se alguém
igual a ti mesmo,
até encontrar
tua natural
e forma própria,
a de
teu pai.
***
OS INOCENTES
Nós íamos ao parque na inocência
para muito prazer, divertimentos
e um pouco de sorte nas argolas.
Jamais nós retivemos uma imagem
de forma superior à sua essência
a fim de que depois fosse expressada.
Jamais observamos qualquer ritmo
de carrossel, de roda ou trem-fantasma
exatos e velozes como o medo.
Jamais nos dirigimos ao porteiro
a fim de questionar o que não fosse
um preço de bilhetes ou a hora.
Jamais pensamos que essa arte toda
seria assim um dia necessária.
***
PROMESSA DE PALAVRA
Embora tornado texto
frio, gabinete, impres-
tável para os quintais,
fechado em coisas de coisas
velhas, frias e sem dança,
a cada novo capítulo,
escreve-se uma esperança.
Livro 4
Poemas Podres, de Paulo Seben
Ei!
Você está lendo um poema.
Pare de dizer que não gosta de ler,
que poesia é coisa de viado.
Você está lendo, não está?
***
TANGO DA INDEPENDÊNCIA
Percorro à noite a avenida Independência.
Os travestis da esquina fazem-me sinais.
Penso na vida, no sentido da existência,
e meus sapatos pisam folhas de jornais.
Por que não chuto cada poste do caminho,
não apedrejo a sinaleira que me pára
nas madrugadas em que caminho sozinho,
pensando em nada, apenas querendo chegar?
Por que não mudo a minha rota, se estou triste,
por que não brota à minha frente a flor do mal,
nem, de repente, me aborda, o dedo em riste,
hercúlea sombra de um violento policial?
Não sei por que, já desisti, só quero caminhar
até que os passos meus me levem a nenhum lugar.
Encontrarei, então, aquilo que perdi:
a minha morte, que fugiu quando nasci.
***
MEU PUTINHO
Você é meu putinho.
Você traz a merenda para eu comer.
Você fica a meu lado pra eu te proteger.
Putinho, você está com medo de ficar sozinho.
Você é meu putinho.
Eu jogo futebol, e você busca a bola.
Eu gazeteio aula, e você me dá cola.
Putinho, você está com medo de ficar sozinho.
Você é meu putinho.
Eu cuspo no teu pai, e você ri também.
Agarro a tua irmã, e fica tudo bem.
Putinho, você está com medo de ficar sozinho.
Você é meu putinho.
Eu saio a passear na sua bicicleta.
Você é tão feliz na sua vida abjeta!
Putinho, você está com medo de ficar sozinho.
Livro 5
Anotações a partir do meu astrolábio, de Marcelo Pires
Estou lendo um lindo poema de Borges
E o som de um sirene ao longe
Encaixa-se entre um verso e outro.
Estrofe seguinte, ouço passos do vizinho
Ecandindo-se, escondendo-se entre as palavras:
Versos ou paredes?
Leio o poema como se fosse cego,
Ecos se imiscuindo no breu. Ou braile.
Minha respiração e a respiração do poeta.
Minha respiração e a respiração do poeta.
O hoje, veloz, invade Borges: volumes.
Suspensa biblioteca.
***
já não desejo a visão de extraterrestres
contatos imediatos com luzes e naves e seres e martes
nem procuro nossa senhora aparecida
no fundo do mar ou nossa senhora
de guadalupe na gruta do méxico
não quero o cometa o eclipse o arco-íris
a esquadrilha da fumaça ou o incêndio
tanto faz a pessoa famosa que passa
ou os manifestantes pró ou contra
que se encontram em plena praça
inúteis godzillas no centro da cidade
- silêncio!
vejo
meu filho
dormir
***
ANOTAÇÕES A PARTIR DO MEU ASTROLÁBIO
I
Noite de verão, na praia, vi uma estrela cadente e decidi
fazer o "pedido". As aspas não são por acaso. O "pedido",
naquela ocasião, ainda era um simples pedido. Com o
passar do tempo, foi repetido dezenas de outras vezes.
57, para ser exato. 57 estrelas, para ser honesto.
Minha constelação de destinos.
Livro 6
Canção das coisas inanimadas, de Silvestrin Roberto
CANÇÃO DAS COISAS INANIMADAS
vou cantar a canção
das coisas inanimadas
pontas das facas
velas singrando o nada
vou cantar a canção
dos olhos arregalados
socos no escuro
rito contra a dor que cala
vou gritar a canção
***
NÃO DISSE NADA
não disse nada
mas eu sabia o que diria
o que deveria ter sido ouvido
não disse nada
sua boca fechada era tudo
eco mudo em lugar de palavras
não disse nada
negativo de foto não revelada
permaneceu gravada no silêncio
***
A BUSCA DA POESIA EM BURACOS
a busca da poesia em buracos
cavados no asfalto
no escuro da noite
num lugar do passado
a busca da poesia no poço fundo
onde os homens enterram tudo
a memória dos amigos
a razão dos sorrisos
as cinzas do carnaval
a busca da poesia à punção
golpes de punhal
escarafuchando a fenda
trazendo à tona
expondo ao sol
Livro 7
Mais que Imperfeito, de Fred Maia
noite insone
a página em branco
induz ao erro
***
escrevo em letra de escriba
garranchos calígrafos
falo uma língua de escracho
ganidos onomatopaicos
com ela construir
lavoura arcaica que seja
em ligeira prosa
dois dedos de Ramos outros de Rosa
minero no idioma pedra
que o sertanejo arqueja
poética de espaçotempo
fábula que arquiteto erga
almejo uma escritura suja
persigo a garatuja
que escreve a lesma
sobre si mesma
***
tudo muda
o aparente morto
aduba
Livro 8
Teleférico, de João Ângelo Salvadori
tudo isso faz sentido,
falha do desconhecido.
janela da casa, furo no granito.
tanto que quase me sangra
o que é senão espírito
***
ei
acorda
escuta o silêncio
da página
rio
onde a sede começa
mas não espanta os pássaros
que vêm beber
na outra margem
***
onde fica o fim, eu me perguntava
onde fica o fim
e olhava pela janela e só havia
rio, pôr-do-sol, ponte, estrada
onde fica o fim, eu
me perguntava
além do fim fica a escada, eu pensava
e já via meus pés, um após outro
e o som dos degraus que ninguém mais ouvia
Livro 9
O fundo do ar e outros poemas, de Alexandre Brito
escrever
seguir o curso
entre a surpresa e o susto
ler as entrelinhas
como o vento nos arbustos
***
entre o breu e o brilho
armou o cavalete.
pintava fora do quadro
com os dedos em pleno ar
onde o espaço era amplo
e a tela mais macia.
o que ouvia punha ali.
naquele pedaço
de céu de chão de sonho
o pio do passarinho
a voz do vendedor de loteria
o apito do afiador de facas
a correria para o recreio.
os gritos no pátio do colégio
a mãe chamando para o almoço
e o gosto do bife de fígado da avó
poria depois, bem depois
quando tudo estivesse esquecido
num momento em falso
em alguma noite sem estrela
sem esperança, sem salvação.
pintou pintou e pintou
até lembrar
definitivamente
que antes de tudo
toda arte existe pra nada.
***
o tempo
escreveu em meu corpo
pele d'alma, uma letra
transparente e selvagem
agora
esculpe em minha face
o rosto de um homem
que se parece comigo
Livro 10
Confissões Aplicadas, de Ronald Augusto
souza
cruz
&
um cômputo de fumaça
entre ele e o mundo
***
estanco um
vazio com outro
mais psiu a cisma que cisma
no tanque (fontaine)
um mijo golpeia - ainda
sarro sileno
***
JOANA INÊS NÃO TEVE UM SÃO JOÃO
uma árvore (quer remo
? vamos para ventarola
) nos adornava de ar
no bosque da noite escura (noite
em claro desbastando moscas dos cascos)
na boca dos namorados palavras
não passam em branco
despidas vão (dentes do
espírito) cavando clareiras
Livro 11
Sem aparente significado especial, de Frank Jorge
Por favor
Vamos tentar
Uma vida
Sem reticências
Mas que a permanente dúvida atenta
Persista
***
O ELOGIO
O elogio constante é um perigo
Eterno perigo ser elogiado doravante
Dependendo de onde vier o elogio pode ser constrangimento
Sob pena de perder tempo se incomodando
Descaracterize agora já a idéia da ausência de crítica
Pensei num café melhor e caia na real
Você não é assim tão fenomenal
Você não passa de um humano
Disse um verdadeiro ser extra-territorial
Você não é tão legal quanto você pensa
***
ORIGINAIS
Meus originais
Meus originais
Que precisam ser paridos
Num mundo de cópias
Meus originais
Meus originais
Como contas a vencer
Mas isto não tem nada a ver com criatividade e literatura, rapaz ...
Meus originais
Meus originais
Sem dor na consciência e piedade alguma da raça
São eles
Mas a culpa não é minha
Livro 12
DePassagens, de Ricardo Portugal
POESIA NÃO É A REALIDADE
Poesia não é realidade
Minha brincadeira meu caminho
no caminho branco de uma só alameda
minha vida não é realidade
Realidade é um trem-bala correndo
no eixo prazer-dor
Realidade é um zepelin lerdo queimando
charuto na noite de sua cabeça
Realidade é uma falta uma fala
uma fome um f minúsculo
realidade é um pau que cresce
e um olho que brilha
você segredos de lápis de olho olha
realidade riscando meu riso meu resto
na espera no escuro no escroto
realidade na sua cabeça
***
TODO O DINHEIRO DO MUNDO
Todo o dinheiro do mundo
valeria o poema escrito para nada
Não se paga este preço para nada
Todo o dinheiro sonhado por alguém
por toda uma vida escrita para nada
e toda a grana por que se tem ganas
gostos gastos guerras para nada
por que homens gaguejam e mulheres
envelhecem para nada
todo o dinheiro do mundo
e somente todo ele
valeria o poema
Não se paga este preço para nada
***
ORAÇÃO PARA WALT WHITMAN
Olhe à frente de você
este céu rede de estrelas
sobre o negrume da Terra
pescando você
Olhe à frente de você
o diadema de luzes
que orna a carne e a tez
de negritude latina
da América minha
e sua também
Olhe à fente de você
de um lado a outro da Terra
os dois peixes constelares
nesta estrada aberta
dobrada sobre si mesma
cobra que morde o próprio rabo
Sempre à frente de você
Livro 13
Cupido: cuspido, escarrado, de Estrela Ruiz Leminski
Os anos e os dias vão mudando
como as páginas do diário
Ou muda o número de páginas
ou mudam as paixões
Cada ano eu preciso
comprar um dicionário
Só pra entender as minhas anotações
***
Fodam-se as regras
de gramática e redação
Os acadêmicos não são deuses
pra decidir quem é bom ou não
Danem-se os verbos
e suas regras de conjugação
Esses se acham padres
capazes de dar sermão
A literatura é cristo,
um santo que estende a mão
Um poço de sabedoria,
sem limite para o perdão
Pregadores são os que escrevem
relatando o seu tormento
e fingem não ser seu o sofrimento
A poesia é anjo que chega e comunica
que ensina o amor novo
e apaga a chaga antiga
***
Viver em algum lugar
que não seja aqui
que não seja já
Ser jornalista na itália
Uma noite fria em 1852
Casar com Damon Hill
Estar na torcida do Vasco
Nem se esforce,
a vida não é feita só de não
Você já é personagem
de um livro de ficção
Livro 14
Animalesca escolha, de Glauco Mattoso
SONETO AREJADO [625]
Acabo de no rádio ouvir que, a sós,
cachorros filosofam e, segundo
pesquisas, formam, como sobre o mundo,
idéias desdenhosas sobre nós,
humanos pobretões, que mesmo após
na técnica avançar tão longe e fundo,
capazes de distâncias num segundo,
ainda engatinhamos quanto à voz!
Latidos, sim, são fala inteligível,
sutil, sofisticada, e não fonema
grafado e articulado em baixo nível!
Uivar, grunhir, é música e poema!
Contudo, o ser humano é imprescindível
para os acompanhar...mas sob algema!
***
SONETO ACOMPANHADO [628]
Bassês não são eternos, nem são nossa
melhor ou mais completa companhia...
mas unem gênio, graça e raça à esguia
salsicha, à pata torta, curta e grossa.
Do Chicho, meu bassê, não há quem possa
dizer que outro mais fofo e vivo havia.
Dá dó seu triste olhar, que o meu copia.
Tem charme e classe até quando se coça.
Depois dalgum convívio, conversamos
na mesma língua, e a bom entendedor
bastava um "au", sem teimas nem reclamos.
Sabia estar nos olhos minha dor,
e sei que os dois estávamos e estamos
no mesmo barco, e irei pronde ele for.
***
SONETO PEDAGÓGICO [96]
A pata do elefante esmaga e mata.
Os pés do porcalhão nunca são sãos.
Macaco não tem pés, tem quatro mãos.
Nojenta é uma perninha de barata.
Quem gosta de pisão de gato é gata.
O rato deixa pista pelos vãos.
Cavalo trota ou não, conforme os chãos.
A foca tem pé chato; o pato empata.
Zoólogo que estuda a centopéia
conclui que a natureza não dá salto.
No circo das cobaias faço a estréia:
Rastejo pelo chão, e, lá do alto,
o domador me faz bilu-tetéia,
calcando meu focinho com seu salto.